Durante muito tempo, o meu dia era uma sequência de estímulos. Acordava e já tinha o telemóvel na mão. Preparava o pequeno-almoço com um podcast. Trabalhava com música de fundo. Lia notícias enquanto comia. À noite, via algo na televisão ou no ecrã antes de dormir. O espaço entre as coisas estava sempre ocupado.
Num fim de semana em que fiquei sozinha na casa de Sintra, decidi não preencher nada. Não pus música. Não abri o telemóvel para “ver só uma coisa”. Não liguei a televisão. Apenas deixei o dia acontecer. Nos primeiros horas, senti uma espécie de vazio desconfortável. Depois, comecei a notar coisas que o preenchimento tinha tapado.
O que o espaço revelou
Percebi que o meu corpo tinha um ritmo próprio. Quando não estava a ouvir nada externo, o estômago avisava quando tinha fome de verdade. Os olhos cansavam-se em horas diferentes. O sono vinha mais naturalmente quando não havia luz de ecrã antes de dormir.
Percebi também que as ideias apareciam mais quando não as procurava. Uma frase que estava à procura há dias surgiu enquanto lavava a louça sem pressa. Uma solução para um problema pequeno apareceu enquanto olhava para o jardim sem fazer nada.
Como comecei a proteger o espaço
Não criei regras rígidas. Criei pequenos intervalos de não-preenchimento. Entre uma tarefa e outra, fico um minuto sem fazer nada. Depois do almoço, não abro imediatamente o computador. Antes de dormir, deixo o quarto escuro por alguns minutos antes de pegar no livro ou no telemóvel.
Estes intervalos são pequenos. Mas são suficientes para o espaço voltar a existir.
Uma experiência para quem quiser
Se quiser experimentar, escolha um período do dia — pode ser só quinze minutos depois do almoço — e não preencha. Não ponha música. Não abra o telemóvel. Não faça nada “útil”. Apenas fique.
Pode ser estranho no início. Depois, pode ser surpreendente o que aparece quando o ruído para.
Se esta observação sobre o espaço vazio te fez pensar, talvez queiras ler sobre os gestos que me ajudam a ancorar os dias.