Durante muito tempo, vivia com as luzes acesas. Acordava, acendia a luz da cozinha. Trabalhava, acendia a luz da sala. À noite, acendia tudo para que a casa parecesse “viva”. Achava que estava a criar ambiente. Na verdade, estava a tapar a luz que já existia.
Um dia, numa tarde de outono em Sintra, a electricidade foi abaixo por algumas horas. Fiquei sem escolha. Sentei-me na sala com o que restava da luz do dia e esperei. Aos poucos, as paredes começaram a mostrar texturas que eu nunca tinha visto — o reboco irregular, a sombra de uma planta que balançava na varanda, o tom quente que o sol tardio deixava na madeira do chão. Quando a luz voltou, apaguei-a outra vez. Queria ver mais.
O que mudei quando parei de acender tudo
Comecei a observar as horas em que a luz natural era suficiente. Na minha casa actual, a sala recebe luz directa até quase às quatro da tarde no verão. No inverno, até às duas. Em vez de ligar a luz às três, comecei a parar o que estava a fazer e simplesmente olhar para o que a luz fazia com os objectos.
Percebi que uma parede branca não é branca. Tem tons de amarelo quando o sol bate de lado, tons de cinza quando está nublado, tons quase rosados ao pôr do sol. O mesmo quadro que parecia plano de manhã ganhava profundidade à tarde. Os livros na estante mostravam as lombadas de forma diferente conforme a hora.
O que ganhei com menos luz artificial
Não ganhei mais claridade. Na verdade, algumas noites a casa fica mais escura do que antes. Mas ganhei uma relação diferente com o tempo. Quando a luz começa a baixar, o corpo entende que o dia está a acabar. Não preciso de olhar para o relógio. A casa toda me diz.
Também ganhei uma espécie de intimidade com os objectos. Uma chávena que parecia comum de manhã revela o brilho do esmalte quando o sol da tarde a toca. Um tecido que parecia liso mostra as suas rugas e texturas quando a luz vem de lado. As coisas ganham camadas.
Uma pequena prática
Se quiser experimentar, amanhã à tarde, quando a luz natural ainda for suficiente, apague todas as luzes da casa por quinze minutos. Sente-se num lugar onde normalmente não se senta. Observe o que as paredes, o chão e os objectos fazem com a luz que entra.
Não precisa de fazer nada. Apenas ver. Depois, se quiser, pode acender uma luz. Mas talvez descubra que já não precisa de acender tantas.
Se esta observação sobre luz te fez parar, talvez queiras ler sobre o que acontece quando deixamos o silêncio entrar no dia.