Gestos que ancoram o dia

Não foram grandes rituais que criei de propósito. Foram pequenos gestos que apareceram sozinhos quando comecei a prestar atenção ao que o corpo pedia entre uma coisa e outra.

Durante muito tempo, o meu dia era uma lista de tarefas. Acordava, fazia a primeira coisa, depois a segunda, e assim por diante. Entre as tarefas, havia buracos — momentos em que esperava, ou em que o corpo precisava de uma pausa, ou em que a cabeça precisava de respirar. Eu preenchia esses buracos com mais tarefas ou com o telemóvel.

Um dia, reparei que, quando punha a água a ferver para o chá, ficava sempre a olhar para a janela. Quando acabava de escrever uma página, esticava os ombros de uma forma específica. Quando chegava a casa, deixava o saco no chão e ficava parada por alguns segundos antes de tirar os sapatos. Estes gestos não eram planeados. Eram o que o corpo fazia quando eu não o obrigava a fazer mais nada.

O que estes gestos fazem

Percebi que estes pequenos gestos funcionam como âncoras. Não me tiram do dia. Fazem o contrário — trazem-me de volta para dentro dele. Quando ponho a água a ferver e olho para a janela, o corpo lembra que existe um mundo lá fora. Quando estico os ombros depois de escrever, a cabeça lembra que existe um corpo que a sustenta. Quando fico parada na entrada de casa, o dia tem um momento de transição em vez de ser uma linha contínua de acção.

Não são gestos “úteis” no sentido tradicional. Não produzem nada. Mas produzem presença.

“Os gestos que ancoram não são os que fazemos para chegar a algum lado. São os que fazemos para estar onde já estamos.”

Como comecei a proteger estes gestos

Não criei uma lista de “rituais matinais”. Apenas parei de os interromper. Quando o corpo começa a esticar-se, deixo-o esticar-se até ao fim. Quando a água ferve e eu estou a olhar para a janela, não mudo de tarefa imediatamente. Deixo o momento acabar por si.

Com o tempo, estes gestos tornaram-se mais conscientes. Agora, quando noto que estou a apressar-me entre duas coisas, paro intencionalmente por trinta segundos e faço o que o corpo parece querer — seja beber água devagar, seja tocar na planta da varanda, seja simplesmente ficar de pé sem fazer nada.

Uma sugestão simples

Se quiser experimentar, amanhã, entre duas tarefas, pare por trinta segundos e veja o que o corpo faz quando não o obriga a fazer nada. Pode ser esticar-se, pode ser bocejar, pode ser olhar para um ponto fixo. Não julgue. Apenas deixe acontecer.

Pode descobrir que o dia já tem âncoras. Só precisa de as deixar existir.

Obrigada por ler até aqui. Se alguma destas observações te fez parar um pouco, escreve-me. Gosto de saber que o espaço entre as coisas também é partilhado.

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