Durante anos, vivia com ruído de fundo. A rádio ou um podcast enquanto preparava o pequeno-almoço. Música enquanto trabalhava. O telemóvel sempre por perto, mesmo quando não estava a usá-lo. O silêncio parecia vazio, quase desconfortável.
Um dia, depois de uma manhã particularmente barulhenta em Lisboa, voltei para casa e fiz algo diferente. Desliguei tudo — a música, as notificações, até a ventoinha do computador. Sentei-me na varanda com uma chávena de chá e esperei. Nos primeiros minutos, o silêncio parecia estranho. Depois, começaram a aparecer sons que eu nunca tinha reparado: o vento nas folhas de uma árvore próxima, o canto distante de um pássaro, o ruído suave de um carro a passar na estrada lá em baixo, o crepitar da madeira da cadeira quando me mexia.
O que o silêncio revelou
Percebi que o silêncio não é ausência de som. É ausência de ruído imposto. Quando tiro o que eu mesma estava a pôr, o espaço começa a falar por si. E o que ele diz é surpreendentemente rico.
Num dia de vento, o silêncio da varanda tem o som das folhas a bater umas nas outras. Num dia de chuva, tem o som da água a escorrer pelo telhado. Num dia normal, tem o som distante da vida da rua — vozes, portas a bater, passos — que, sem o ruído de fundo, ganham uma espécie de música própria.
Como comecei a usar o silêncio
Não criei uma prática formal de meditação. Criei momentos de silêncio intencional ao longo do dia. Quando ponho a água a ferver para o chá, espero sem fazer mais nada. Quando termino uma tarefa, fecho os olhos por um minuto antes de começar a próxima. Quando chego a casa, deixo o saco no chão e fico parada na entrada por alguns segundos antes de acender a luz.
Estes momentos não são longos. Às vezes são apenas trinta segundos. Mas são suficientes para o corpo lembrar que existe um espaço entre as coisas que faço.
Uma experiência simples
Se quiser experimentar, amanhã de manhã, antes de pegar no telemóvel ou ligar qualquer coisa, sente-se na cozinha ou na sala com uma chávena de qualquer coisa quente. Não faça nada durante cinco minutos. Apenas ouça o que está presente quando não põe nada por cima.
Pode ser surpreendente o que aparece quando paramos de preencher o espaço.
Se esta observação sobre silêncio te tocou, talvez queiras ler sobre os gestos pequenos que me ajudam a ancorar o dia.